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Trilhas e pegadas deixadas há milhões de anos pelos dinossauros em vários pontos da região de Sousa-PB
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Região de Sousa: As pegadas mais
importantes do mundo Hoje podemos afirmar que, há 130 milhões de anos, no período Cretáceo inferior, ela era coberta por uma ampla bacia fluvial, percorrida por um grande rio que drenava, com seus afluentes, todas as águas da região e as conduzia para o sul, em direção à atual foz do rio São Francisco. O clima dominante era, provavelmente, semi-árido, com estações alternadas de seca e de chuva. Durante estas últimas, formavam-se amplas concentrações de água, em cujo fundo os rios depositavam grande quantidade de areia fina, ou lodo avermelhado. As margens dos rios eram ocupadas por extensas florestas xerofíticas, constituídas principalmente por coníferas de porte baixo, sob as quais floresciam tapetes de samambaias. A vida animal fervilhava: os dinossauros dominavam completamente o ambiente, com dezenas de espécies diferentes e milhões de indivíduos. Aqui, podia ser vista uma manada de saurópodos tomando banho numa lagoa; ali, passava correndo uma matilha de carnossauros, bípedes e ágeis; noutro lugar, pastavam placidamente iguanodontes e outros ornitísquios. Na região que hoje ocupa o oeste da Paraíba e a área fronteiriça do Ceará, linhas tectônicas paralelas, dispostas nas direções leste-oeste ou nordeste-sudoeste, estavam permitindo movimentos distensivos da crosta terrestre, conexos com a separação dos continentes africano e sul-americano. Fossas tectônicas se abriam, permitindo o depósito de quantidades cada vez mais espessas de sedimentos nestas faixas de fraqueza estrutural e formando bolsões que podiam atingir milhares de metros de profundidade. Com o tempo, a erosão aplainou o Nordeste, delineando o perfil dos maciços e das cinturas cristalinas de idade pré-cambriana, e arrasando os sedimentos aluviais e lacustres da cobertura cretácea. Sobravam, porém, os bolsões profundamente enterrados entre pilares cristalinos, onde os sedimentos cretáceos continuavam presentes, como alternância de siltitos escuros e lamitos roxos ou avermelhados. Estes bolsões constituem hoje, de leste a oeste, a bacia do rio do Peixe, dividida nas sub-bacias de Pombal, Sousa e Brejo das Freiras, na Paraíba; Icó, Lima Campos, Palestina, Iguatu e outras, no Ceará. Como o ambiente e o clima antigos da região não eram favoráveis à conservação de ossadas, até pouco tempo estas áreas eram consideradas completamente estéreis do ponto de vista do estudo dos vertebrados pré-históricos, e as pegadas fósseis encontradas por Luciano Jacques de Morais eram tidas como exceção. Comecei em 1975 a exploração da bacia do rio do Peixe, no sertão paraibano, e, a partir de então, não deixei de fazer a cada ano uma ou duas expedições, descobrindo, em uma vasta área, inúmeras pistas fósseis, quase todas de dinossauros, algumas das quais estão colocadas entre as mais bonitas do mundo. Na localidade de Piau, por exemplo, perto de Sousa, existe um afloramento de quase dois quilômetros no leito rochoso do rio do Peixe que abrange camadas sucessivas de 62 metros de espessura total. Encontram-se aí pelo menos 24 níveis com rastros de dinossauros que viveram no local em diferentes períodos do Cretáceo inferior. Ao todo, reconhecemos pistas de 194 animais diferentes, em sua maioria dinossauros bípedes e carnívoros da subordem dos terópodos. Os carnossauros de tamanho médio/grande são mais numerosos, havendo poucos celurossauros de tamanho pequeno/médio. Um interessante par de rastros representa a parada de um animal que pode ser um antepassado do tiranossauro, e um campo de pegadas mostra sinais de pequenos e médios dinossauros carnívoros. Há ainda sete pistas de prováveis saurópodos, em diferentes níveis do terreno. As pegadas de dinossauros bípedes e herbívoros são raras, mas muito interessantes; algumas lembram iguanodontes, outras hadrossauros. No entanto, há uma clara predominâcia dos carnívoros em quase todos os níveis, configurando uma razão caçadores/caça muito mais alta do que a prevista pela lei da "pirâmide das biomassas": não há, com efeito registros de herbívoros em quantidade suficiente para garantir a alimentação de tantos caçadores, mas este não chega a ser um fenômeno incomum na icnologia, decorrendo provavelmente do fato de os carnívoros serem animais mais ativos, que precisam fazer explorações mais simples do terreno em que habitam, deixando, portanto, pegadas mais numerosas dos que os herbívoros, que avançam pouco durante um mesmo dia e raramente mudam de pasto. O estudo do comportamento dos animais fósseis do Piau é muito interessante. Pelas pistas podemos concluir que, com exceção dos saurópodos lembrados acima, os dinossauros andavam sozinhos, sem nenhuma forma de organização grupal. A maioria das pegadas procede ao longo de um eixo nordeste-sudoeste (provavelmente por causa da direção dos vales, rios e lagos) e segue paralela à direção das cristas das marcas ondulares gravadas no sedimento pelas oscilações da água, o que significa que os animais caminhavam o mais das vezes paralelamente á linha da praia. A relativa raridade de pegadas de dinossauros jovens indica a existência de uma enorme percentagem (cerca de 90%) de adultos nestas populações, provavelmente relacionada à elevada mortalidade infantil (existentes ainda hoje nos grupos répteis) e o fato de que, adultos, os dinossauros tornavam-se quase indestrutíveis, pela estatura, pelas couraças e por outras defesas, alcançando idades muito avançadas. Finalmente é notável a ausência de pegadas de outros grupos animais, havendo apenas uma pista, talvez atribuível a um crocodilo, que não pode ser classificada entre os dinossauros, além de uma quantidade de pequenas pegadas de misteriosos répteis nadadores. Não há rastros de pássaros ou mamíferos, o que indica o vasto predomínio dos dinossauros sobre a Terra naqueles tempos remotos. Também perto de Sousa existe outro conjunto de pistas de dinossauros, gravado em uma área de 190 x 140 metros sobre um lajedo de arenito amarelado pertencente à formação Antenor Navarro, do Cretáceo inferior. O material situado na localidade de Serrote do Pimenta, é de origem aluvial, o que nos leva a imaginar os dinossauros andando às margens dos rios ou sobre barras arenosas. A área abrange seis ou sete pistas impressionantes de um quadrúpede pesado e grande, provavelmente um saurópodo, numerosas pistas de ótima qualidade de carnossauros (bípedes e carnívoros) com diferentes variações nas andaduras: alguns répteis andavam ao passo, outros corriam, e um deles avançava com passadas de até cinco metros, todos em velocidade que poderemos calcular por meio de fórmulas específicas. A pista mais interessante desta formação - e a única no mundo até aqui - é a de um quadrúpede de seis a sete metros de comprimento, cujos pés dianteiros eram pequenos e arredondados, e os pés traseiros, muito grandes, providos de uma grande almofada e de três dedos em forma de cascos elípticos. Uma comparação das pegadas com os esqueletos conhecidos permite atribuir essa pista, com razoável grau de certeza, a um estegossauro, o dinossauro herbívoro, provido de grandes placas ósseas triangulares ou pentagonais situadas em duas cristas dorsais, e de grandes espinhos na extremidade da cauda, armas de defesa e ataque. Experiências com maquetes em escala reduzida e o conhecimento que temos sobre o peso específico médio dos répteis atuais nos levam a atribuir cerca de duas toneladas a este animal. A região de Sousa a Antenor Navarro, na Paraíba, é uma das mais interessantes do mundo - talvez mesmo a mais interessante - no campo das pegadas de dinossauros. Uma ampla comissão que congrega 13 entidades federais, estaduais e municipais (entre as quais o CNPq, o DNPM e a Empresa Paraibana de Turismo) está planejando a criação de um parque nacional para proteger e valorizar o local. O nome escolhido e muito sugestivo: Vale dos Dinossauros. Será o primeiro parque paleontológico da América do Sul. Em quatro localidades escolhidas à volta da cidade de Sousa, no fim das pistas serão colocadas estátuas dos respectivos autores em tamanho natural. Painéis e um museu completarão um quadro do passado, que mostra espécies extintas mas fala da continuidade da vida neste pequeno planeta. Diante dela some o nosso orgulho: sob nossos pés, na terra estão inúmeras criaturas que nos precederam e, como nós, andaram, lutaram, viveram e desapareceram. "Toda criatura é como herva, e toda sua glória como a flor dos campos" (Isa 40,6).
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